A presença do petista José Dirceu em Goiás, na noite de ontem, antecipou, a uma semana da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Estado, o projeto de consolidação de palanque único nas próximas eleições, que acomode PMDB, PT e PP na disputa pelo governo estadual. O ex-ministro-chefe da Casa Civil não escondeu a intenção política de sua viagem e reforçou a tese de que a aliança entre peemedebistas e petistas na Capital ganhará apoio da máquina estadual na corrida rumo ao Palácio Pedro Ludovico. “Nosso objetivo é vencer em Goiás”, assegurou, após expor a relação cada vez mais estreita entre o presidente Lula e o governador Alcides Rodrigues (PP), a quem se referiu como “parte da aliança”.
Em Goiânia, para participar de debate sobre conjuntura política nacional com militantes do PT na Assembleia Legislativa, Dirceu utiliza a viagem para costurar a aliança que ditará os rumos do embate em 2010. Ao desembarcar em solo goiano, às 18 horas (40 minutos após o horário previsto), antes de se dirigir à Assembleia Legislativa, o petista seguiu direto para o gabinete do prefeito Iris Rezende (PMDB), com quem conversou, a portas fechadas, por cerca de uma hora. Mais do que uma visita de cortesia, a reunião representou um novo passo em direção à formação do bloco que fará frente ao PSDB na sucessão estadual, que tem como pré-candidato o senador Marconi Perillo.
“Conversamos sobre o futuro de Goiás e fiquei muito feliz ao ouvir de Iris tudo que já foi feito por Goiânia. É uma plataforma fantástica, o prefeito tem história para ser, novamente, governador de Goiás”, disse Dirceu, oferecendo sinais de qual seria a estratégia do governo Lula no Estado. Segundo ele, aliança entre PT, PMDB e PP é o “ideal” a ser buscado e os esforços têm se concentrado nesta meta. A parceria dos sonhos, porém, ainda encontra maior amparo no lado peemedebista do projeto. O compromisso com PMDB, garante o petista, é prioritário.
A adesão de Alcides aos planos deve ganhar fôlego na próxima quinta-feira (13), quando Lula vem a Goiás e, entre inaugurações de obras e discurso em praça pública, retoma negociações com o pepista e Iris. De acordo com Dirceu, ainda não há nomes definidos e “o próprio Iris não se anunciou candidato”. A atenção que o governo federal tem dispensado ao governador, acima de tudo no compromisso de buscar em conjunto a adimplência da Celg, foi apontada como evidência da boa relação que caminha para parceria política. Dirceu afirmou que ele mesmo tem sido um dos interlocutores do governo com o governador. Abordagem mais direta referente ao próximo pleito, entretanto, acontecerá hoje, em audiência que o ex-ministro tem com Alcides no Palácio das Esmeraldas, pela manhã. “Teremos a primeira conversa política”, informou Dirceu.
Meirelles
Possível entrave na aliança entre PT, PMDB e PP, a candidatura do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, ao governo estadual foi considerada “indefinida” por José Dirceu. Meirelles tem articulado com a cúpula pepista postulação ao governo estadual, o que iria na contramão da eventual candidatura de Iris Rezende.
De acordo com Dirceu, a melhor solução passa, necessariamente, pelas mãos do presidente Lula e deve ser definida nos próximos meses. A filiação de Meirelles até setembro a algum partido dará os primeiros sinais da estratégia traçada por Lula, que pode inclusive solicitar o presidente do BC na disputa nacional. “Se ele (Meirelles) se filiar ao PMDB, torna-se um ‘vice-presidenciável’, caso se filie a outro partido, se será candidato ao governo ou ao Senado, depende. Melhor perguntar ao Lula.”
Dirceu descartou possibilidade de Meirelles ser candidato à presidência, ao ser questionado sobre estado de saúde frágil da pré-candidata do governo, ministra Dilma Rousseff. “Não há possibilidade de candidatura alternativa. Nunca houve plano B.”
Até o momento, Meirelles afirmou que só tomará decisão sobre futuro político em março, quando poderá deixar o comando do Banco Central – pelo menos foi o que ele disse em encontro no Senado. Quanto à filiação, além do PP, o PTB e o próprio PMDB disputam sua assinatura na ficha.
Hoje, Dirceu toma café com o governador às 8 horas, no Palácio das Esmeraldas, e em seguida reúne-se com o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela (PMDB). Pela tarde, viaja a Anápolis para se encontrar com o prefeito Antônio Gomide (PT).
Iris diz que projeto pepista só existirá junto à base lulista
Ainda escorregadio quando o assunto é candidatura ao governo estadual em 2010, o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (PMDB), voltou a dizer, após receber em seu gabinete o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu (PT), que ainda não é hora de anunciar se deixa a prefeitura. Entusiasmado, porém, com a visita de Dirceu e com os esforços do petista em concretizar aliança da base lulista em Goiás, disparou: “O projeto do governador Alcides (Rodrigues, do PP) perante seu partido não existirá contra o projeto do PMDB e do PT”, afirmou, ontem à noite, no Paço Municipal.
A afirmação foi feita após Iris ser indagado sobre sua declaração, há cerca de um mês, de que aliança com PP seria remota. Diante do esforço do presidente Lula em unir prefeito e governador no mesmo palanque, o peemedebista parece olhar com novos olhos para a possibilidade de parceria. “Não me surpreenderá, no futuro, se estivermos juntos num embate.”
Segundo Iris, a conversa com Dirceu, que foi reservada e durou aproximadamente uma hora, tocou em pontos da política nacional e local, mas não em nomes. O prefeito classificou como “gentileza” o fato de Dirceu tê-lo mencionado como nome de prestígio para governar Goiás. Ao finalizar, realçou o vigor do projeto que pretende unir esforços da base de Lula contra seu principal adversário, o senador Marconi Perillo (PSDB), que aspira voltar a governar o Estado. “Apenas posso dizer que a eleição para governador de Goiás no próximo ano vai ser a mais sensacional de toda a história de Goiás e do Brasil.”